Contra Capa

Grã-Bretanha, Idade Média

Uma mulher muito especial...


Quem olhasse para Avelyn não diria que ela estava tão ansiosa, apavorada mesmo.

Esperava impressionar seu noivo no dia do casamento, mas qual seria a reação de Paen

quando descobrisse que ela não era a mulher esguia e bem-feita de corpo com a qual ele

certamente desejava se casar?

Paen Gerville sonhava com uma mulher voluptuosa e ardente, em cujos braços ele

encontrasse refúgio e prazer depois de uma vida solitária dedicada às batalhas. No

princípio, sua noiva não parecia prometer tais delícias, com as roupas discretas que lhe

escondiam o corpo, e com a aparente fragilidade e timidez. Entretanto, ao vê-la de


camisola na noite de núpcias, a imagem que Paen tinha de Avelyn mudou da água para

o vinho... e ele sorriu, sedutor, antecipando as surpresas que o aguardavam nos braços

daquela mulher, que era nada menos do que a esposa perfeita...


Lynsay Sands diz que os livros proporcionam sonho, diversão e aventuras que

raramente encontramos na vida real. Ela se considera feliz por poder escrever suas

próprias histórias, nas quais tem liberdade para decidir o destino dos personagens e

transmitir mensagens positivas, ao mesmo tempo que proporciona momentos de alegria

e emoção!


Prólogo


— Ai...

Aquele suspiro sentido fez com que Avelyn se voltasse e se deparasse com lady

Straughton - sua mãe -, que descia as escadas e, ao vê-la sobre a mesa de cavaletes

provando o vestido, havia parado toda lacrimosa.

Lady Margeria Straughton andava bastante chorosa nos últimos tempos. Mais

precisamente, desde que haviam recebido a notícia de que Paen Gerville retornara

finalmente das Cruzadas e desejava assumir o noivado. A mãe de Avelyn não aceitava

bem o casamento. Na verdade, ela não aceitava bem, o fato de que Avelyn mudaria para

Gerville logo após as núpcias. Avelyn sabia que a mãe estava feliz que se casasse e lhe

desse netos. Era da distância que a mudança imporia que ela não gostava. Ela encarava

a situação como se fosse perder a filhinha. Isso porque as duas sempre haviam sido

muito chegadas. Tão chegadas que, em vez de ter sido mandada para estudar fora, fora a

própria mãe de Avelyn quem a instruíra, com toda a dedicação e paciência.

— Ai... — Margeria suspirou novamente ao atravessar o grande salão, seguida por sua

criada pessoal.

Avelyn trocou um sorriso com Runilda, que agora apontava a barra do vestido, e

meneou a cabeça quando a mãe se aproximou, perguntando em tom de doce censura:

— Estou tão medonha assim que só de olhar para mim a senhora chora, mãe?

— Não, não! — retorquiu lady Straughton, alarmada. — Você está linda, querida.

Muito linda. O azul do vestido realça divinamente o azul de seus olhos.

— Então por que toda essa tristeza?

— Ah, é que você está parecendo tanto... tanto... uma dama. Nossa, Gunnora, minha

filhinha é uma mulher adulta agora - ela choramingou para a criada a seu lado.

— É verdade, milady. — Gunnora sorriu paciente. Já ouvira os suspiros inúmeras vezes


desde a notícia da chegada de lorde Gerville. — Está mesmo na hora de ela se casar e

ter sua própria casa.

Em vez de essas palavras acalmarem lady Straughton, uma cascata de lágrimas lavou

seu rosto.

Lorde Willham Straughton — que estava há algum tempo sentado em silêncio próximo

à lareira - deixou de lado uma profusão de cartas e levantou-se, provocando um ruído na

poltrona de couro.

— Pare de chorar, meu amor — ele respondeu a esposa, aproximando-se da mesa. —

Esse momento é de alegria. Pense que tivemos nossa Avelyn conosco por mais tempo

que esperávamos. Se não fosse pela participação de Richard nas Cruzadas,

provavelmente teríamos perdido nossa filha com catorze anos ou um pouco mais.

— Eu sei. — Com a aparência desolada, lady Straughton chegou mais perto do marido

que passou o braço pelo ombro dela. — Sou mesmo muito agradecida que pudéssemos

tê-la até os vinte. Mas é que vou sentir muito a falta dela.

— Eu também vou — lorde Straughton concordou comovido, dirigindo um olhar cheio

de aprovação para a filha. — Você está mesmo linda, filha; igualzinha a sua mãe no dia

de nosso casamento. Temos muito orgulho de você. Paen é um homem de sorte.

Avelyn surpreendeu-se ao ver, por um momento, os olhos do pai marejados de lágrimas,

como se ele também fosse chorar. Ele deu um pequeno tossido e esboçou um sorriso

para a esposa.

— Precisamos procurar nos distrair o máximo possível para não pensarmos que a

perdemos...

— Não há nada no mundo que me tire da cabeça o pensamento de que nosso ninho

ficará vazio — disse lady Straughton inconformada.

— Não? — Um brilho malicioso passou pelo olhar de Willham Straughton, e Avelyn

achou graça de ver a mão dele deslizar pelas costas de sua mãe e lhe dar um tapinha no

traseiro. — Eu consigo pensar em uma ou duas coisas — comentou ele de forma

sugestiva, propondo: — Que tal irmos para nosso quarto discutir algumas idéias?

— Ora... — A voz de lady Straughton soou meio hesitante para quem desejava

protestar. — Gunnora e eu íamos conferir a despensa e ver...

— Vocês podem fazer isso mais tarde. Gunnora, vá descansar um pouco enquanto isso

— sugeriu lorde Straughton, dispensando a criada que escapou pelo salão no mesmo

instante.

— Mas, e Avelyn? Eu gostaria de...

— Avelyn ainda estará aqui quando voltarmos — ele afirmou, apressando-a em direção

à escadaria. — Ela ainda não está se mudando.


— Se é que vai mudar!

Avelyn sobressaltou-se ao ouvir o comentário às suas costas, proferido com uma

gargalhada, só conseguindo manter o equilíbrio sobre a mesa, graças à rápida

intervenção da criada que a segurou pelo braço.

Avelyn agradeceu à moça e voltou-se para encarar Eunice. A expressão do rosto fino da

prima não podia ser mais debochada.

— O que você acha, Stace?

O olhar de Avelyn desviou-se para os dois rapazes que acompanhavam a prima. Eram

os irmãos gêmeos de Eunice, Hugo e Stace, ambos ostentando um sorriso cruel.

Distraída, ela não havia notado a entrada dos três.

Ótimo, pensou contrariada. O destino lhe dera pai e mãe muito amorosos, mas em

compensação a brindara com os três piores primos que poderiam existir. O trio parecia

viver para atormentá-la. Desde que haviam chegado a Straughton dez anos antes, o que

lhes dava maior prazer era apontar um defeito seu. O castelo em que eles viviam, na

fronteira da Escócia, havia sido destruído e o pai deles morto. Como não tivessem

outros parentes a quem recorrer, a mãe os trouxera para Straughton onde passaram a

infernizar a vida de Avelyn.

— Acho — disse Stace, sentando-se no banco e projetando seu grosso nariz para cima

ao levantar a cabeça para olhar para Avelyn — que assim que Gerville descobrir como

sua noiva é gorda, ele vai romper o contrato e fugir voando dela.

— Receio que Stace esteja certo, Avelyn — Eunice concordou, com falsa simpatia,

fazendo com que Avelyn se sentisse passada. — Você está parecendo uma enorme

ameixa nesse vestido. Não se preocupe com a cor porque acho que não é esse o

problema, se bem que com o vermelho, você fica parecendo uma enorme cereja e com o

marrom...

— Já entendi, Eunice — Avelyn retorquiu calmamente, vendo Eunice e Hugo sentar-se

no banco ao lado do irmão.

Ela tentou ignorar a presença dos primos, mas toda a segurança e todo o carinho

transmitidos pelos elogios dos pais esvaneceram-se. Já não se sentia mais nem um

pouco linda. Sentia-se desajeitada e gorda. O que era mesmo. Somente na presença dos

pais, com seu amor incondicional, ela conseguia se esquecer disso por alguns

momentos. Mas lá estavam os primos para lembrá-la sempre.

— Pois eu sempre achei as ameixas lindas e saborosas.

Avelyn virou-se para a porta ao ouvir tal declaração. Não saberia dizer há quanto tempo

seu irmão, Warin, estaria ali, mas da maneira como olhava para os primos, era certo que

já fazia algum tempo. Eunice, Hugo e Stace imediatamente se levantaram e escaparam

pela porta da cozinha.


Warin manteve o olhar sobre eles até que tivessem saído. Depois, dirigiu-se à irmã:

— Não se deixe abater por eles, Avelyn. Você está linda. Parece uma princesa.

Avelyn forçou um sorriso e agradeceu quando o irmão se aproximou e pegou sua mão,

dando-lhe um apertãozinho.

Pela expressão de Warin, estava claro que ele sabia que não havia convencido a irmã.

Ele pensou em insistir, mas desistiu. Soltou um suspiro resignado e perguntou:

— Você sabe onde está nosso pai?

— Subiu com a mamãe. — Depois de uma pequena pausa, tendo novamente um brilho

divertido no olhar, ela acrescentou: — Foram discutir maneiras de distraí-la para evitar

que fique pensando na minha partida.

Warin franziu a sobrancelha, depois sorriu e se encaminhou até a porta.

— Bem, quando eles descerem, por favor diga a papai que preciso dar uma palavrinha

com ele. Estou lá embaixo no campo de treino.

— Está bem. — Avelyn observou o irmão sair, depois abaixou os olhos para ver a razão

de a criada estar puxando o tecido do vestido de um lado e depois do outro. — Por que

está fazendo isso Runilda?

— Acho que preciso pregar um pouquinho nos ombros, milady. Está um pouco folgado

aqui.

Avelyn inclinou a cabeça, tentando ver, mas era difícil enxergar o próprio ombro. Podia,

entretanto, ver bem os fartos seios, o abdome ligeiramente arredondado e os quadris que

pareciam mais largos naquele vestido azul. Uma ameixa, dissera Eunice, e de repente o

tecido que havia escolhido, com tanto cuidado e prazer, perdera toda a beleza. Ela tocou

no tecido. Era tão fino e delicado... Mas nem o mais delicado dos tecidos conseguiria

transformar a idiota de uma galinha gorda em um cisne.

— Então vamos apertar um pouquinho nos ombros, milady?

— Vamos, sim. — Avelyn soltou o tecido da mão e, endireitando os ombros,

acrescentou: — E na cintura também. E pode cortar o excesso de tecido.

A criada arregalou os olhos:

— Apertar a cintura? Mas o talhe está impecável...

— Está agora — Avelyn concordou. — Mas não estará no dia do casamento, pois juro

aqui e agora, que vou emagrecer pelo menos uns seis quilos até lá.

— Desculpe, milady — Runilda começou a dizer, preocupada. — Mas não acho uma

boa idéia...


— Eu acho — respondeu Avelyn, com firmeza, e sorrindo determinada, desceu da mesa

para o banco e do banco para o chão. — Vou perder mais de seis quilos até o

casamento. Uma vez na vida, me sentirei bonita, magra e... graciosa. Paen de Gerville

vai se orgulhar de ser meu noivo.


Capítulo I


—Droga, muito estranho...

— Hum? — Lady Christina de Gerville levantou os olhos do prato, visivelmente

surpresa ao ouvir essas palavras serem cochichadas. Seu olhar tornou-se suave ao se

deter no rapaz sentado entre ela e o marido. Paen de Gerville, seu filho. Seus longos

cabelos escuros estavam presos à nuca, em um rabo de cavalo. Ele estava bem barbeado

e usava uma túnica nova, em um tom verde-escuro, especialmente confeccionada por

ela para aquela ocasião. Paen se parecia muito com o próprio pai no dia do casamento,

bonito, forte e igualmente um pouquinho irritado.

— O que é estranho, filho?

— Isto. — Paen fez um gesto largo, mostrando as diversas mesas de cavalete montadas,

repletas de gente. Lorde e lady Straughton e todos os convidados estavam em volta

deles, com uma exceção. A pessoa mais importante. — Onde está minha noiva? Não é

estranho que ela não esteja aqui? E tampouco estava quando chegamos ontem à noite.

Alguma coisa está errada...

Lady Gerville trocou um olhar divertido com o marido, Wimarc, que, numa pausa de

sua conversação com lorde Straughton, também ouvira o comentário de Paen.

— Não há nada de errado, filho — lorde Wimarc de Gerville assegurou. — Sem dúvida,

a noiva está demorando por causa dessas coisas de... embelezamento. É típico das

mulheres. Por isso são sempre as últimas a chegar. Não precisa se preocupar.

A frase foi concluída com um tapa que pretendia ser de apoio, mas se Paen não

conhecesse esse tipo de gesto afetuoso do pai e não tivesse se agarrado à mesa, teria

caído do banco.

Resmungando ao se ajeitar no banco, Paen pegou um pedaço de queijo e deu uma

mordida, sem contudo tirar os olhos da escadaria na expectativa de que sua noiva


desceria a qualquer momento. Ele sabia que o pai estava certo e que estava nervoso de

uma maneira fora do comum. Agora entendia o porquê. Até então, não tivera qualquer

dúvida. Estava seguro de que tudo daria certo. Estava simplesmente indo buscar a

jovem prometida para torná-la sua mulher.

Embora fosse um acontecimento novo para ele, não era muito diferente do que ir buscar

um novo escudeiro, aliás uma outra coisa que também teria de fazer nessa viagem. Seu

plano era se casar, passar alguns dias em Straughton e, depois, na volta para Gerville,

parar para pegar o escudeiro. Simples. Não havia grandes elaborações a fazer.

Pelo menos era o que havia pensado no caminho para Straughton no dia anterior.

Naquela manhã, porém, a cabeça de Paen mudara. Subitamente lhe ocorreu que uma

esposa talvez fosse diferente de um escudeiro. Afinal, não iria para a cama com ele.

Além disso, não tinha ainda colocado os olhos na futura esposa. Chegava até a pensar

que ela o estivesse evitando. Custava a crer que isso fosse um bom sinal.


— Segure um pouco mais a respiração, milady.

— Não consigo, Runilda. Isso é o máximo que posso — Avelyn proferiu as palavras

com o pouco de ar que lhe restava nos pulmões. — Ainda falta muito?

A hesitação da criada foi a resposta. Avelyn soltou o ar com um suspiro de derrota.

— Não adianta, Runilda. Não vou conseguir vestir essa roupa, e nós duas sabemos

muito bem disso. Mesmo que você conseguisse fechar, as costuras arrebentariam no

momento que você terminasse de abotoar os ganchinhos.

— Que pena, milady. Eu não deveria ter lhe dado ouvidos. — Runilda deu um passo

para ficar em frente a Avelyn. Estava com a culpa estampada no rosto.

— A culpa não é sua. Você fez o que eu lhe pedi.

Avelyn afundou na extremidade da cama, procurando pensar em alternativas. Não havia

muitas. Ela não havia perdido peso algum nas últimas duas semanas. Aliás, achava que

havia engordado um pouquinho. O belo vestido azul em que ela e Runilda haviam posto

tanto empenho estava pequeno demais para ela.

O lado positivo, imaginava, é que não teria mais de temer ficar parecendo uma ameixa

gigante. O lado negativo é que teria de escolher entre parecer uma enorme cereja ou um

monte de...

Se ao menos tivesse provado o vestido antes, talvez houvesse uma chance de fazer

alguma coisa. Mas não provara. Haviam sido tantos os preparativos e tantos convidados

a receber, que não pensara mais no vestido e nem que havia pedido a Runilda para

apertá-lo e cortar a sobre de tecido na costura. De fato, fora uma estúpida.


Procurando não deixar que a auto-piedade tomasse conta de si, Avelyn se levantou e

começou a tirar o vestido.

— Bem, terei de usar o vestido vermelho então. É o que menos foi usado. — Decidiu,

tentando não pensar em como seu rosto ficava avermelhado nele, a razão de ter sido

usado tão pouco.

— Pois não, milady. — Felizmente, Runilda era bastante gentil para não mencionar esse

ponto, mas, pela voz trêmula, era evidente que estava de coração partido.

— Vamos, Runilda, nada de chorar, se não acabo chorando também.

Avelyn desviou os olhos da criada, convicta de que precisava agüentar o desastre com

toda a dignidade e autoconfiança. Não iria chorar. Mesmo que lorde Paen de Gerville a

rejeitasse ao vê-la, manteria a calma e a cabeça erguida.

Ela vasculhava a arca em que suas roupas já estavam guardadas e tirou o vestido

vermelho, comprimindo os lábios ao tocar o tecido macio. Quando o mercador o tirara

da carroça, ela imaginara um vestido de linhas simples que esvoaçaria em torno de seu

corpo. Na verdade, sentira-se muito bonita ao vesti-lo depois de pronto... só até descer

para o jantar.

Hugo, Stace e Eunice rapidamente se incumbiram de mudar sua imagem, com

comentários cáusticos e palavras cruéis, tirando-lhe qualquer prazer de usar o vestido

novo. Fora Eunice que lhe dissera que a cor não lhe assentava bem, e Hugo rira,

completando que nem notara isso, porque ela parecia mesmo uma enorme cereja

naquele vestido. Nunca mais o usara, por isso parecia novo e era com ele que seu noivo

a veria pela primeira vez.

Só lhe restava esperar que Paen de Gerville gostasse de cerejas, pensou, zombando de si

mesma, ao levantar o vestido e sacudi-lo para desamassá-lo um pouco; melhor era

esquecer o motivo de ter detestado aquele vestido.

Assim que Runilda terminou de abotoá-lo, a porta do quarto se abriu.

— Avelyn! — exclamou a mãe. — Por que essa demora? Você ainda nem vestiu seu

vestido! Paen está impaciente para conhecê-la antes do casamento.

— Como é ele? — Avelyn perguntou à mãe que caminhou apressada até ela.

Os Gerville deveriam ter chegado a Straughton no dia anterior, o que daria a Avelyn e

Paen algum tempo para se conhecerem. O dia, entretanto, chegara ao fim sem que seu

pretendente e acompanhantes desse sinal de vida. Muitos convidados já haviam chegado

e sido acomodados antes que um mensageiro trouxesse a notícia de que houvera um

acidente com uma das carruagens dos Gerville. Avelyn já estava na cama quando eles

finalmente chegaram a Straughton.

A bem verdade, ela sentira um certo alívio de que o momento de ser apresentada ao

noivo fosse adiado. Os primos tanto haviam repetido, nas duas últimas semanas, que ele


certamente a rejeitaria no momento em que pusesse os olhos nela, que ela estava muito

insegura e ansiosa.

— Parece um rapaz muito gentil — a mãe afirmou. — Aliás, me lembrou bastante de

seu pai quando jovem. Agora, venha cá. Precisamos dar um jeito de vesti-la

rapidamente.

Avelyn deu um sorriso forçado para a mãe.

— Decidi usar este aqui.

— O quê? — Lady Straughton parou, percorrendo todo o corpo da filha com um olhar

desanimado. — Não, de jeito nenhum. O vestido azul ficou tão lindo em você... e esse

está todo amassado.

— O azul não me cabe — Avelyn explicou ao ver a mãe pegar o vestido, confessando:

— Fiz Runilda apertá-lo e cortar o tecido que estava sobrando por dentro. Esperava

emagrecer antes do casamento, mas...

— Oh, Avelyn! — Lady Straughton abaixou as mãos, deixando o vestido arrastar no

chão. - Não posso acreditar numa coisas dessas.

Muito envergonhada, Avelyn começou a se virar, mas a mãe a pegou pelo braço,

abraçando-a carinhosamente.

— Ah querida, como eu gostaria que você se aceitasse como é. Você é linda, por que

sofre tanto?

— Porque sou uma vaca gorda, mãe, e não queria ser.

Para espanto de Avelyn, a mãe disse um impropério ao soltá-la e tinha a expressão

carregada de raiva.

— Vou tirar Hugo, Stace e Eunice de circulação. Francamente, aqueles três! Sei que

estão por trás disso. — Ela calou-se de repente e procurou se acalmar. — Esqueça,

querida. Você não se parece com uma vaca de jeito algum. Você só é um pouco mais

cheinha. Do jeito que os homens gostam.

Avelyn fungou, mas a mãe a ignorou.

— Você não pode usar o vestido vermelho. Está amassado demais. — Lady Straughton

voltou a olhar para o vestido azul que ainda segurava. — Tenho uma idéia, mas

precisamos nos apressar. Todos estão prontos para ir para a igreja. Só estão esperando

por você. Tire o vestido vermelho — recomendou e, voltando-se para Runilda, pediu:

— Vá procurar Gunnora e diga a ela que traga depressa aquela peça de tecido branco

que compramos do mercador.

— O que está pensando, mãe? — Avelyn perguntou ansiosa ao tirar o vestido vermelho.


— Vamos enfaixá-la.

Avelyn arregalou os olhos.

— Me enfaixar?

— Isso. Se não dá para alterar o vestido para que caiba em você, vamos modelar seu

corpo para que caiba nele.

— Será, mãe? — Avelyn suspirou, não achando a idéia muito boa.

Alguns momentos depois, ela estava convencida de que não era mesmo. Ela precisava

se segurar em Runilda para manter o equilíbrio, enquanto a mãe e Gunnora enrolavam

sua cintura e a apertavam de maneira quase insuportável.

— Falta muito, mãe? Está apertado demais. — Avelyn arfou, apertando as mãos nos

ombros de Runilda. A criada lhe deu um meio sorriso, inclinando-se para o lado a fim

de ver o que lady Straughton e Gunnora estavam fazendo.


— Sei que está desconfortável, mas é só mais um pouquinho. — A mãe tentou acalmá-

la, recomendando depois à criada: — Mais apertado, Gunnora. Estamos quase


acabando.

Avelyn gemeu, pois a pressão em sua cintura agora estava insuportável. Podia jurar que

todos os seus órgãos estavam sendo empurrados para cima, pressionando seus pulmões.

Mal conseguia respirar. Ela quase desmaiou de alívio quando a mãe anunciou:

— Pronto! Acabamos. Só falta amarrar.

— Não dá para amarrar, milady — Gunnora contestou. — Vai ficar uma saliência.

Precisamos costurar.

— Tem razão. Eu prendo aqui então enquanto você costura, mas, por favor, seja rápida,

Gunnora. Estou ficando com cãibra nas mãos.

— Sim, milady.

Avelyn ouviu toda essa conversa de forma nebulosa. Ela só conseguia inspirar um

pouquinho de ar de cada vez. Sua cabeça começou a girar. Deitou o rosto no ombro de

Runilda e procurou se agarrar a um fio de consciência por mais um pouquinho.

— Pronto! — A voz de Gunnora tirou Avelyn daquele estado de torpor.

— Graças a Deus! Minhas mãos já não estavam mais agüentando — lady Straughton

reclamou. — Vamos agora tentar fechar o vestido. Perfeito!

Avelyn imaginou que "perfeito" significava que elas tivessem conseguido abotoar o

vestido. Só teve certeza, porém, ao ser virada para ficar de frente para a mãe e Gunnora.

Ela levantou a cabeça e tentou sorrir.


As duas mulheres trocaram olhares satisfeitos.

— Você está adorável, querida. Simplesmente adorável! — Pegando Avelyn pelo braço,

lady Straughton tentou apressá-la. — Vamos descer logo antes que venham nos

procurar.

Avelyn conseguiu atravessar metade do quarto, cada passo era mais lento e mais difícil.

Foi obrigada a parar.

— O quê há, filha? — perguntou lady Straughton.

— Eu... nada, só preciso... respirar um pouco. — Avelyn forçou um sorriso, tentando

puxar todo o ar que pudesse para dentro dos pulmões. — Só preciso... de mais... um

minuto.

Dessa vez, Lady Straughton e a criada entreolharam-se preocupadas.

— Está bem, respire um pouco e depois descemos para que você conheça seu noivo

antes de irmos para a igreja.

Só de pensar em andar, não apenas de seu quarto até embaixo, mas também todo o

trajeto até a capela, tornou sua respiração ainda mais difícil. A igreja nunca lhe parecera

tão distante. Não estava conseguindo encher o pulmão de ar nem para respirar, quanto

mais andar. Apenas dera alguns passos e já estava trôpega.

— Creio que não vou conseguir caminhar até lá — ela murmurou, sabendo que iria

desapontar a todos.

— Filha — lady Straughton procurou sustê-la —, você está muito pálida, querida. Acho

que devemos soltar só um pouquinho a faixa.

— Não é possível — Gunnora lembrou-a. — Está toda costurada.

Lady Straughton pareceu tão acabrunhada ao ouvir isso, que Avelyn se esforçou para

endireitar o corpo e dizer:

— Talvez se andarmos devagar...

— Isso mesmo — a mãe concordou aliviada. — Inclusive é mais refinado andar

devagar. Vamos tentar de novo, mais devagar desta vez.

Avelyn lutou para dar um passo, depois outro. Começou então a sentir o sangue lhe

fugir do corpo, ficando fria e pálida. O quarto começou a rodar em volta dela.

— Ah, meu Deus, isso não vai dar certo — concluiu lady Straughton desolada, fazendo

Avelyn parar. Ela ficou pensativa por um momento, depois voltou-se para a criada,

recomendando: — Vá buscar Warin e meu marido imediatamente, Gunnora.


— Pois não, milady.

Assim que a criada deixou o quarto, Margeria voltou a atenção para a filha. Notando

que ela estava trêmula, procurou fazê-la dar uns passos até ficar em frente a uma arca.

— Sente-se aqui, querida.

— Não posso — Avelyn retrucou, tentando aspirar um pouco de ar e lutando para

manter-se em pé ao ser puxada pela mãe. — Não posso sentar! É pior. Por favor,

preciso de ar... preciso...

Lady Straughton ficou apavorada.

— Você está ficando azul! Runilda! Depressa, abra a janela! — gritou, passando o

braço pelo ombro de Avelyn e ajudando-a em pânico a chegar perto da janela já aberta

pela criada.

O dia estava tempestuoso. O vento rodopiava pelo quarto, fazendo com que o dossel

ondulasse ao redor da cama em que Avelyn estava encostada. Ela podia sentir a brisa

batendo no cabelo, soltando várias mechas do coque feito por Runilda, mas não se

importou. Tudo o que importava era a sensação revigorante da brisa fria batendo em seu

rosto. Avelyn abriu a boca para melhor sorver o ar, mas seus pulmões pareciam

comportar somente um pouquinho de cada vez.

— Que diabos está acontecendo aqui?

As três mulheres assustaram-se com o berro do lorde Straughton ao irromper

intempestivamente no quarto, seguido por Warin cujas feições mostravam preocupação.

— Margeria? Por que essa demora? Primeiro é Avelyn que não desce, depois você

desaparece, e Gunnora... — Ele parou de falar de repente ao olhar para a filha. Toda a

raiva que tinha estampada no rosto desanuviou-se e ele correu em direção a ela. —

Avelyn, por Deus, sua palidez está assustadora. O que você está sentindo?

— Está tudo bem... — lady Straughton começou a dizer, mas parou quando Avelyn

apertou com força os dedos em seu braço.

— Só estou um pouco nervosa, pai — Avelyn murmurou, arfando. Ela procurou sorver

o ar novamente e, com os olhos cheios de lágrimas pelo incômodo de não poder respirar

direito, prosseguiu: — Vou me casar e deixar a minha casa. Vou sentir saudade do

senhor e...

Essas últimas palavras foram ditas com um gemido, pois Willham de Straughton deu

um abraço apertado na filha.

— Vamos sentir saudade de você também. Você é a luz dos nossos olhos, filha. Mas

vamos nos visitar sempre e... Você perdeu um pouco de carne, menina? Parece menor

para abraçar...

— Solte-a Willham! — lady Straughton recriminou-o. — Você a está sufocando.


Assim que ele a soltou, ela se voltou e se apoiou no peitoril da janela, deixando o ar

bater em seu rosto.

— Tem certeza de que é apenas nervoso? — Warin perguntou. — Ela não parece nada

bem.

Lady Straughton insistiu que eles não precisavam se preocupar e, suspirando, concluiu

determinada:

— Entretanto, no estado em que ela está, a caminhada até a igreja seria cansativa

demais. Willham, acompanhe todo o mundo até lá. Warin, você vai levar Avelyn a

cavalo.

— Mas é mais longe para eu ir buscar o cavalo do que andar até a capela — Warin

protestou.

— Além disso — ponderou lorde Straughton, concordando com o filho —, os Gerville

vão achar que ela é doente ou...

— Não vão, não, se você explicar que na corte é considerado muito romântico a noiva

chegar em um puro-sangue e que todas as noivas nobres estão fazendo isso — lady

Straughton insistiu pacientemente.

Willham piscou os olhos.

— Estão mesmo?

— Sei lá! — retrucou lady Straughton já exasperada. — Você odeia a corte e nunca me

leva lá.

— Então você quer que eu minta?

— Quero.

— Muito bem. — Lorde Straughton deu um sorriso sarcástico e saiu do quarto.

— Ele vai me fazer pagar por isso — lady Straughton murmurou, não parecendo,

contudo, muito preocupada. Pediu então para o filho: — Vá buscar o cavalo. Nos

encontramos à porta.

No momento em que Warin saiu, lady Straughton voltou sua atenção para Avelyn.

— Ora, você parece bem melhor! — exclamou surpresa.

Avelyn esboçou um sorriso.

— Acho que estou me acostumando. Se conseguir me manter calma e não me

movimentar muito, parece que fico bem. — Com todo o cuidado, ela se afastou um

passo da janela, depois outro e mais outro.


— Talvez seja melhor você descansar até Warin chegar com o cavalo — recomendou a

mãe, estendendo a mão para evitar que ela pudesse cair.

— Só quero ter certeza de que não vou desmaiar ao caminhar do cavalo até meu marido

— Avelyn retorquiu, dando mais alguns passos, ladeada por Gunnora e Runilda que

mantinham as mãos estendidas para ampará-la se fosse preciso. Bastaram meia dúzia de

passos para que o quarto começasse a rodar.

Ela achou melhor parar de falar, pois assim evitaria de ficar sem fôlego. Andar era mais

importante.

Depois de esperar por alguns instantes para que passasse aquela sensação, ela continuou

a andar. E não foi a única a suspirar de alívio quando alcançou a porta.

Avelyn se recostou no batente da porta por um momento, depois deu um leve sorriso

para as ansiosas acompanhantes e abriu a porta. Deu dois passos no hall e parou. Era

preciso vencer aquele longo... longo corredor até a escadaria.

Respirou fundo e procurou reunir o pouco de forças que lhe restavam. Endireitando os

ombros, deu mais um passo, sentindo um alívio quando a mãe e Gunnora a pegaram

cada uma por um braço. Runilda ficou atrás, dando-lhe sustentação pelas costas.

Embora estivesse quase sendo carregada pelas três, vez por outra ela precisava parar

para respirar e desanuviar a cabeça.

Ela acabava de fazer uma nova parada quando Warin surgiu no patamar da escada em

frente a elas.

— Como vocês estão demorando! Estou aguardando... — ele começou a protestar, mas

pareceu assustar-se ao ver a irmã. — Bom Deus, Avelyn está quase desmaiando! — Seu

olhar passou de uma mulher para outra, tentando entender o que estava acontecendo.

Achando melhor ela mesma dar a humilhante explicação, Avelyn procurou ser o mais

breve possível. Para seu alívio, o único comentário de Warin foi:

— Bem, está claro que você precisa de ajuda para descer e ir até o cavalo, senão jamais

chegaremos à igreja.

Ele se aproximou mais e tentou pegá-la no colo. Tentou, mas não deu certo. Ela estava

rija como um cabo de vassoura dos quadris para cima. Não conseguia dobrar as pernas.

Não havia como carregá-la. Por um momento, Warin temeu ter de enfrentar as escadas,

mas então agachou-se um pouco e a pegou pelas pernas, gemendo ao erguer o corpo.

Avelyn soltou um grito e se agarrou à cabeça e depois aos ombros dele.

— Fique quietinha, Avelyn — ele recomendou. — Essa descida pode ser complicada.

Ela estava petrificada de medo, mas obedeceu ao irmão, rezando até chegarem ao

grande salão social.


Warin continuou a carregá-la, seguido pela mãe e pelas duas criadas. Quando saiu do

castelo e se aproximou da montaria, estancou preocupado.

— Como vou colocá-la no cavalo se ela não consegue flexionar parte alguma do corpo?

Houve um momento de suspense. Lady Straughton então adiantou-se e disse:

— Coloque-a no chão, Warin, e me dê seu punhal. E fique de costas por um momento.

— O que vai fazer, mãe? — Avelyn perguntou ansiosa ao ser posta no chão.

— Vire-se querida — a mãe ordenou, e depois se postou atrás da filha para abrir a parte

de trás do vestido. — Vamos rasgar um pouco a parte de baixo da faixa. O suficiente

para que você possa se sentar no cavalo.

— Mas...

O protesto de Avelyn morreu nos lábios ao sentir que a faixa havia cedido um pouco em

volta dos quadris, sem contudo, aliviar nem um pouco seus sofridos pulmões. Ainda

assim aquela sensação já era uma bênção.

Pai do Céu, que maravilha seria quando finalmente se livrasse de toda aquela verdadeira

atadura.


Minha nossa! A costura estava arrebentando!

Avelyn não se percebeu de início. Pareceu-lhe sentir menos desconforto quando

estavam no meio do caminho para a capela. A cerimônia já poderia estar bem adiantada,

não fosse a mãe ter tido a brilhante idéia de que ela, Gunnora e Runilda deveriam andar

na frente do cavalo, cada uma carregando uma cesta de flores que iriam atirando durante

todo o percurso. Com isso haviam perdido um tempo muito precioso para que

colhessem no jardim os botões mais bonitos.

Na hora, Avelyn chegou a pensar que ficaria mesmo bonito, mas, à medida que se

desconforto diminuía, dava-se conta de que o rasgo feito na parte de baixo da faixa

começava a subir por conta própria e passou a achar a idéia péssima.

— O quê você tem? Por que está tão enrijecida assim? — Warin indagou.

Não que ela não estivesse bastante empertigada na sela antes, mas agora, Avelyn

procurava suster a respiração para que o rasgo da faixa não aumentasse mais.

— Mais rápido — ela sussurrou por entre os dentes.

— Mais rápido? Mas... — Ele deu uma olhada para a mãe e as criadas que andavam na

frente, depois para ela. — Avelyn, o que há com seu rosto? Por que está tão vermelho e

inchado?


Avelyn soltou a respiração.

— Não se preocupe com meu rosto, Warin, a faixa arrebentou. Preciso descer. Logo.

Para alívio seu, o irmão não contestou, chamou a mãe e explicou que precisavam se

apressar. Lady Straughton avisou as criadas e, na ânsia de andar mais rápido, elas,

praticamente, passaram a correr, atirando as flores de maneira quase frenética.

Mal haviam andado uns três metros, Avelyn sentiu que a faixa definitivamente ficava

mais frouxa. Chegou até a ouvir o tecido rasgar um pouco sob o vestido. Warin também

ouviu.

— Saiam da frente! — ele gritou para as mulheres.

Lady Straughton os olhou desarvorada e imediatamente deu passagem ao filho que

instigou o cavalo a galopar. As três mulheres então passaram a correr atrás do cavalo,

atirando as flores nas costas deles. Quando Warin finalmente fez o cavalo parar, Avelyn

não ficou surpresa de ver um grupo de convidados boquiabertos em frente à capela.

Warin desceu da montaria e se voltou para ajudar Avelyn a desmontar, soerguendo as

saias de maneira não muito decente, na tentativa de evitar que o rasgo continuasse.

Ela manteve-se imobilizada por um momento, mal respirando para ver se ficaria bem ou

se estouraria o vestido como uma uva rompendo a casca.

— Está tudo bem? — Warin perguntou ansioso.

— Acho que sim. — Avelyn imaginou que a faixa ficara suficientemente presa sob o

vestido, pois continuava sem poder respirar muito.

— Está tudo bem? — a mãe, quase sem fôlego, quis saber. Logo atrás dela, chegaram

Gunnora e Runilda que também a olhavam com uma expressão inquisidora.

— Está. Acho que não abriu tudo. Que tal estou?

Lady Straughton a examinou de baixo para cima e lhe deu uns beliscões nas faces para

lhe fazer voltar um pouco de cor ao rosto.

— Você está muito pálida, mas muito linda.

Avelyn manteve-se imóvel, lembrando-se de como Hugo costumava atormentá-la

alguns anos antes. Ele dizia que suas bochechas lembravam a de um esquilo com uma

noz de cada lado e a seguia por toda a parte gritando:

"Bochechuda!" "Bochechuda!"

A imagem que tinha de si mesma, agora, era de um extremo ridículo, com o corpo de

uma magreza forçada e as fazes rechonchudas.


— Pronto. — A mãe deu um passo para trás e sorriu. — Você está linda. Você

consegue andar o resto do caminho?

Avelyn lançou um olhar nervoso para os degraus da igreja ainda um tanto distantes.

Warin poderia ter se aproximado mais deles, mas ela confirmou que poderia cobrir

aquela distância se fosse bem devagar.

Os convidados abriram caminho, tal fez o mar Vermelho para Moisés.

Avelyn deu alguns passos devagar. Bem devagar. Tão devagar, que pouco saiu do lugar

e ainda assim sentia-se ofegante e precisava lutar contra aquela sensação de

entorpecimento.

— Santo Deus, ela parece um peixe! — Wimarc de Gerville sussurrou em choque,

soltando um gemido quando a esposa o cutucou com o cotovelo. — Desculpe, mas ela

parece... — ele murmurou envergonhado e sacudiu a cabeça. — Não me lembro de que

ela tivesse o rosto tão chupado e os lábios tão comprimidos quando a vimos ainda

criança e acertamos o contrato. Você se lembrava?

— Não. — Lady Christina de Gerville não conseguia tirar os olhos da donzela

caminhando em direção a eles. Deus amado, ela estava caminhando tão devagar e com

tanta dificuldade, que certamente Ele a perdoaria por achar que a pobrezinha estava

parecendo caminhar para a morte e não para o noivo.

Paen pouca atenção prestava à conversação, atento que estava à aproximação da noiva.

Não estava nada preocupado com a aparência dela. De fato, a parte inferior do rosto da

noiva estava um tanto contraída naquele momento, mas, apesar disso, dava para ver que

ela tinha lábios cheios e macios. O nariz era reto e delicado e os olhos eram grandes, de

um azul-claro, realçado pelo bonito tom castanho-claro dos cabelos, que estavam

recolhidos no alto da cabeça, com alguns pequenos cachos soltos nas laterais, o que lhe

suavizava as feições. Ele imaginava que se ela distendesse os músculos das faces,

ficaria ainda mais bonita.

Não, não era a aparência da noiva que preocupava Paen naquele momento, era seu

modo de andar. Ela caminhava dura como um soldado e no ritmo lento de uma pessoa

fraca ou doente, a última coisa que ele poderia desejar. Ele contava em ter uma esposa

robusta e saudável que lhe oferecesse conforto e força nos embates que a vida pudesse

reservar para eles.

Pouco havia que pudesse fazer agora. Logo saberia com quem teria de conviver. Esse

contrato nupcial fora assinado em seu nome quando ele ainda era uma criança e não lhe

restara outra escolha a não ser honrá-lo.

Foi preciso um cutucão do pai para que ele percebesse que a noiva já estava a seu lado e

que ele ainda estava de costas para o padre.

Virando-se, depois do gesto nada sutil do pai, Paen ensaiou um cumprimento e sorriu

para a noiva.


Avelyn fechou os olhos por um segundo e fez um agradecimento silencioso a Deus

quando Paen de Gerville sorriu para ela. Por um momento, ela teve receio de que todo o

seu sacrifício tivesse sido em vão, e que o noivo a rejeitasse no ato, como Eunice e os

irmãos haviam lhe dito.

Com as pernas trêmulas e o medo quase consumindo suas forças, Avelyn não olhou

para o padre imediatamente, ficou fitando o noivo.

A mãe não havia mentido quando o descrevera. A primeira coisa que chamava a atenção

nele era a altura. Ele era muito alto e tinha os ombros quase tão largos quanto a porta da

capela. E, de fato, era muito bonito. O mais importante para ela, porém, é que

obviamente ele era bom, pois, muito embora sua expressão inicial ao vê-la tivesse sido

de desapontamento, os sorrisos que agora lhe dirigia asseguravam que ele não a

recusaria. Sim, ele era incrivelmente bom e, de certa forma, já estava um pouco

enamorada dele por não tê-la rejeitado de imediato.

Foi necessário que o padre desse uma tossidela para trazê-la de volta à realidade. Ela

voltou os olhos para o santo homem e, pela expressão dele, compreendeu que enquanto

ela se encantava com o noivo, o padre havia começado a cerimônia e aguardava a sua

resposta.

— Shim — ela respondeu, corando ao ouvir como a própria voz saía por tentar manter

as bochechas chupadas. Para conseguir mantê-las presas, ela precisava mordê-las um

pouquinho.

Como não houvesse nenhum tipo de comentário, Avelyn procurou relaxar um pouco e

tentou respirar. Parecia, porém, não haver ar algum. As pessoas que os cercavam cada

vez chegavam mais perto e ela começava a se sentir sufocada. Inconscientemente, se

agarrou ao braço do agora marido e disse a si mesma que não devia entrar em pânico,

mas o rosto do padre começou a tremular na sua frente e a voz dele começou a sumir.

Ah, meu Deus, ela pensou angustiada, não estou nada bem.


A preocupação de Paen quanto ao estado de saúde da noiva só fazia crescer à medida

que a cerimônia prosseguia. Ela havia agarrado o braço dele alguns momentos antes de

uma maneira pouco usual, quase desesperada. Agora, como a cerimônia se prolongasse

muito, pela pressão da mão em seu braço, parecia que ela oscilava nas pernas. E na hora

de repetir os votos, a voz dela saiu fraca e arfando.

— Agora o noivo pode beijar a noiva.

Paen voltou-se inteiramente de frente para Avelyn e se assustou com a respiração muito

ofegante dela. Ela parecia frágil demais.


Pelo visto, ele pensou, este será um casamento curto diante da saúde deficiente dela.

Seguindo o ritual, porém, ele se curvou para beijá-la. Os lábios de Avelyn tinham gosto

de hidromel. Eram macios e quentes e... sumiram?

Paen abriu os olhos atônito ao ouvir os convidados mais próximos soltarem um "Oh".

Foi o tempo exato para que ele a tomasse nos braços. Avelyn havia desmaiado.

Paen olhou para a noiva inconsciente. Uma parte de sua mente estava em choque diante

da situação, mas a outra, notava que ela era realmente bonita, especialmente agora que,

por estar sem consciência, não conseguia chupar o rosto.

— Mas o que há com essa jovem? — perguntou o pai de Paen, intrigado.

A família de Avelyn imediatamente se acercou dos dois, e os convidados, que com a

surpresa haviam mantido absoluto silêncio, irromperam em ruidoso falatório ao ouvir a

pergunta.

— O que aconteceu? Como está ela? — alarmou-se lorde de Straughton.

Paen achou que a pergunta era um bom sinal, pois sugeria que a esposa não era dada a

desmaios, que aquela era uma ocorrência fora do comum. Era animador.

— Ela está bem — lady Straughton assegurou a todos, enquanto as duas criadas

acorreram para abanar o rosto de Avelyn.

— Com licença, talvez eu deva... — Warin tentou tirar a irmã dos braços do marido.

Esse gesto pôs fim ao choque de Paen. Olhando feio para Warin por tentar fazer o que

agora considerava seu dever, Paen o afastou com o cotovelo e pegou Avelyn no colo...

Ou tentou. A esposa não era muito carregável. Era estranho que ela não envergasse o

corpo dos quadris até a nuca. Ele acabou segurando-a de atravessado no colo, como se

fosse uma tábua. Deveras desconcertante, pensou, abrindo caminho entre os convidados,

sem se importar com as criadas que ficavam para trás.

Ao deixar a capela, Paen fitou várias vezes a noiva. Devia ficar feliz por ela ser bonita,

mas isso não compensava sua constituição frágil. Na realidade, preferia mais ter uma

esposa saudável do que bonita e doente.

Os anos em que ele passou em campanha, criaram nele certas expectativas do que seria

uma esposa. Haviam sido muitos esses anos, lutando em uma batalha após a outra,

morando em tendas que tinham goteiras quando chovia e que em nada protegiam contra

o frio da noite.

De início, considerara tudo uma grande aventura. Fizera boa camaradagem com seus

compatriotas. Mas conforme as batalhas foram se sucedendo e os homens caindo um a

um a seu lado, a grande aventura começara a cansar. Ele passara a desejar o conforto de

uma cama seca, o calor de uma lareira e os seios macios de uma boa esposa para

repousar a cabeça. Somente seu juramento ao rei sob a espada e seu desejo de proteger e

cuidar de seu irmão mais jovem, Adam, impediram que ele abandonasse o campo de

batalha e retornasse para casa. Adam, que insistira em segui-lo, havia demorado mais


para perder o entusiasmo pelas batalhas e acabara por perder a vida, com uma espada

sarracena no peito. Paen ficara então sem qualquer condição de luta. Entendendo isso, o

rei Ricardo concedera-lhe licença para levar a triste notícia à família e sugerira que ele

cuidasse do casamento. Depois de um curto período de luto, ele começou as tratativas

com os pais da noiva.

— Oh...

Paen deixou as divagações de lado ao ouvir o suspiro da esposa que, distante da

pequena aglomeração que os circundava, e com a brisa fresca batendo-lhe no rosto,

voltava a si. Quando ela tentou erguer ligeiramente a cabeça, fitando-o meio

entontecida, ele procurou ajeitá-la melhor nos braços, mas ela continuava tesa.

Avelyn começou a se debater para se livrar dos braços dele. Melhor descrevendo, ela

começou a bater com a própria cabeça nele e a agitar a parte de baixo das pernas.

— Por favor, ponha-me no chão! — Embora com muita dificuldade para respirar, toda

aquela situação lhe era extremamente embaraçosa.

Na tentativa de acalmá-la, Paen lhe disse, sorrindo:

— Relaxe.


Avelyn parou de se debater ao ouvir a recomendação do marido. Ele não parecia

zangado, mas um tanto incomodado com seu desmaio. Sem dúvida, seu desempenho no

casamento não tinha sido dos melhores, com seu caminhar lento, a dificuldade de

pronunciar o "sim", culminando com o desmaio.

Com essa reflexão, ela deu-se conta de que havia se esquecido de chupar o rosto. Tratou

de fazê-lo imediatamente, torcendo para que o marido não tivesse notado. Observou

então, por trás do ombro dele, que todos os convidados da festa os seguiam a uma certa

distância. Ele andava rápido, apesar de carregá-la, e a cada passo deixava os outros um

pouco mais para trás.

Avelyn soltou um suspiro, sentindo-se infeliz. Não era justo obrigar Paen a carregá-la

por toda aquela distância.

— Peço-lhe, milorde — começou novamente, soltando as bochechas por um minuto

para falar. — Ponha-me no chão antes que se machuque. Sou muito pesada... — Ela fez

uma pausa ao ver o marido parar e contemplá-la espantado, para, em seguida, soltar

uma gargalhada.

Ele meneou a cabeça e disse, ainda rindo:

— Como carregar uma coisinha pequena como você poderia me machucar? Ah, as

mulheres! — exclamou, divertindo-se, e continuou a caminhar, aparentemente


indiferente ao fato de que Avelyn corara.

Ela pensou, mas desistiu de protestar de que não era coisinha pequena alguma, e sofreu

o restante da jornada em silêncio.

Foi um alívio para ela chegar ao castelo e ser acomodada no banco junto à mesa de

cavalete. Logo tratou de endireitar as saias e evitou o olhar do marido, sentado a seu

lado. Estava bastante nervosa e seu alívio foi maior ao ver as portas do castelo se

abrirem e as pessoas adentrarem o grande salão.

Lady Straughton estava à frente de todos. Ela caminhou rapidamente até a filha, com a

expressão muito preocupada.

— Você está bem, querida?

— Estou, sim — ela limitou-se a dizer.

— Você parece bem melhor — comentou uma senhora ao lado de Margeria, que só

poderia ser a mãe de Paen.

— Parece mesmo. — Lorde Straughton parou ao lado de Avelyn, dando-lhe um tapinha

no ombro. Voltou-se então para o senhor que parecia uma versão mais velha de Paen e

disse: — Que situação mais aflitiva. Avelyn nunca havia desmaiado antes em toda a sua

vida. Deve ter sido a expectativa do casamento...

Avelyn fechou os olhos, desejando que todos simplesmente se sentassem e esquecessem

o assunto.

— Com certeza é por causa do corre-corre do casamento — comentou alguém e Avelyn

abriu os olhos para ver quem falava.

Era uma mulher de idade aproximada a de sua mãe, que tinha o rosto muito bonito e os

cabelos loiros, começando a ficar grisalhos.

— A tia Helen está certa — apartou uma loirinha. — Aconteceu a mesma coisa com

minha prima. Ela sempre foi uma mulher muito forte até descobrir que tinha um bebê na

barriga e aí começou a desmaiar por qualquer coisa.

— Diamanda! — exclamou tia Helen, chocada.

— Não estou dizendo que lady Avelyn esteja... claro que ela não está esperando um

bebê. — A menina tentou corrigir-se de imediato, mostrando-se mortificada com a

interpretação de suas palavras. — Só que estava comparando a tensão da chegada de um

filho com a tensão do casamento e tudo mais. — Pela fisionomia de Diamanda, estava

claro que ela adoraria sumir dali diante dos olhares de censura que todos lhe dirigiam.

Conhecendo aquela sensação muito bem, Avelyn sentiu pena da jovem. Era horrível ser

o centro das atenções, principalmente quando se tinha consciência de ter falado uma

bobagem. Forçando um sorriso, ela logo procurou defendê-la.


— Claro que você não quis dizer isso. Eu realmente trabalhei bastante para ajudar a

providenciar tudo, além de estar nervosa e dormindo mal. Além do mais, estava muito

abafado lá na igreja, com muita gente nos rodeando, não é?

— Estava abafado mesmo — a mãe concordou mais que depressa, para ajudar a

desanuviar o ambiente. — Vamos todos nos sentar. A cozinheira levou um bom tempo

planejando este banquete e trabalhou quatro dias para prepará-lo, por isso está ansiosa

para começar a servir.

Todos acataram a sugestão e começaram a tomar seus lugares à mesa. Avelyn soltou um

suspiro de alívio e, timidamente, olhou para o lado, abaixando imediatamente os olhos

ao ver que o marido a fitava.

— Obrigado.

Ela levantou os olhos surpresa.

— Por que, milorde?

— Por não ter se ofendido com o comentário infeliz de Diamanda e ajudar a apaziguar a

situação.

— Tenho certeza de que ela não teve a intenção de me ofender — murmurou Avelyn,

dando de ombros e também tamborilando na toalha branca que a mãe insistira em cobrir

a mesa principal.

— Ela ainda é uma criança e às vezes meio desajeitada — Paen comentou,

acrescentando: — E receio que um pouco mimada também. Minha mãe sempre se

ressentiu de não ter tido uma filha e cobriu Diamanda de afeto quando ela chegou em

Gerville. Minha mãe sentirá ao vê-la partir.

— Ela terminou o treinamento então? — perguntou Avelyn curiosa.

— Ela foi treinada em Gerville porque ia se casar com meu irmão Adam. Como ele

morreu, a família dela está procurando um outro pretendente e decidiu que ela deve

voltar para casa enquanto isso. A tia dela, lady Helen, veio buscá-la, mas minha mãe

está tentando convencê-los a deixar Diamanda ficar até que se case. Lady Helen está

aguardando a resposta a um bilhete que minha mãe mandou para o pai de Diamanda. —

O olhar de Paen percorreu a mesa até localizar a jovem. — Temo que minha mãe ficará

decepcionada.

— Você acha que o pai não permitirá que ela fique?

— É uma menina bonita. Acho que o pai já deve ter encontrado um pretendente e quer

que ela esteja em casa para os preparativos do casamento.

— Ela aparenta ter no mínimo dezesseis anos. Não é mais uma menina.

— Diamanda tem catorze — ele corrigiu.


Surpresa, Avelyn dirigiu o olhar para a moça. Embora ela fosse pequena e esbelta, era

bem servida de busto. Ainda assim, aos catorze anos, já tinha idade suficiente para se

casar e não mais ser considerada uma menina, mas Avelyn não insistiu no assunto,

mesmo porque as portas da cozinha se abriram e os criados começaram a se perfilar

carregando as bandejas de comida. Os primeiros dirigiram-se à mesa principal,

enquanto os demais espalharam-se pelo salão. O aroma da comida estava delicioso.

Avelyn sorriu para a criada que parou em frente a eles para servi-los. Paen começou a

empilhar as iguarias no prato que os dois compartilhariam, e Avelyn continuou

concentrada em seu infortúnio.

Ainda tinha dificuldade para respirar. Se não era fácil estar em pé, muito pior era estar

sentada. Tinha a sensação de que as faixas iriam esmagar suas costelas. Ela não podia

nem pensar em engolir qualquer das comidas que Paen colocara no prato. Se não havia

espaço em seu corpo para uma coisa efêmera como o ar, imagine para comida... o que,

para Avelyn, não deixava de ser uma forma de tortura, pois estava faminta. Ansiosa

desde a véspera da chegada do noivo e família, dava-se conta de que havia dois dias que

não se alimentava. E agora, empacotada como estava, não tinha condições de comer.

Para complicar as coisas, sentia-se acalorada e começava a sentir coceira sob os seios

onde acabavam as faixas que ficavam roçando sua pele delicada, irritando-a.

— Coma.

Avelyn olhou reticente para o marido, que começava a comer. Ela abaixou o olhar para

a comida, realmente desejosa de poder provar, mas não se mexeu.

— Coma! — ele insistiu, dando um suspiro. — Eu desejava ter uma esposa sadia, com

um apetite sadio.

Diante do desapontamento na voz do marido, Avelyn pegou um pedaço de carne e o

aproximou da boca. Mas não o comeu. Simplesmente o manteve perto dos lábios, sob o

nariz. O cheiro do suculento assado quase a fez desmaiar de prazer e vontade, mas,

definitivamente, ela sabia que não caberia alimento algum em seu estômago, tão

espremido estava. Pôr qualquer coisa na boca só faria aumentar seu desconforto.

— Está muito bom, não está? — perguntou o marido, aparentemente procurando

estabelecer uma conversação.

Avelyn de imediato aquiesceu com a cabeça e deu uma mordida, pois ele a observava,

aguardando sua aprovação. Como ele continuasse a observá-la, ela foi obrigada a

mastigar e continuar mastigando.

Pai do Céu, pensou, parece manjá dos deuses. Temendo engasgar se engolisse, ela

continuou mastigando e ele notou, comentando divertido:

— Acho que você já mastigou bastante.

Não tendo outra saída, Avelyn engoliu o pedaço de carne e ficou satisfeita de que não

tivesse parado na garganta, como temia. Bastou dar um suspiro, porém, sentiu a costura

ceder um pouco. Alarmada, procurou aprumar o corpo para evitar que o rasgo


aumentasse, mas de nada adiantou. Um pequeno ruído, de um novo rasgo, e a faixa

afrouxou mais um pouco.

— Você ouviu um barulhinho? — perguntou Paen.

— Não — Avelyn balbuciou, sentindo o pedaço de carne queimar o estômago.

Com medo até de respirar, abaixou os braços, tentando prender as laterais do vestido

com os cotovelos.

— Ouvi novamente! — disse Paen, olhando ao seu redor.

Avelyn não precisava olhar ao redor. Ela sentiu muito bem os pulmões se expandirem à

medida que a faixa cedia. Se minutos atrás estava com medo de se mexer e tornar a

situação pior, agora, estava em desespero para sair dali antes que passasse por uma

verdadeira humilhação. Por um momento, cogitou uma desculpa para se levantar e sair,

mas ao sentir um novo afrouxamento, desistiu da desculpa, respirou fundo e se

levantou.

O momento foi errado. Um criado acabara de parar atrás deles carregando uma bandeja

com um pernil enorme. Sem querer, ela empurrou o coitado do homem; a bandeja que

ele carregava se desequilibrou e o pernil escorregou. Agindo por instinto, Avelyn se

curvou para ajudar a equilibrar a bandeja. Que gesto infeliz. Não havia dúvida de quem

o som que se fez ouvir era de tecido rasgando. Ela parou de imediato, segurando o

pernil para não cair da bandeja.

— Avelyn? — a mãe, um pouco mais adiante na mesa, a chamou ansiosa.

Avelyn fechou os olhos e começou a rezar. Por enquanto, somente a faixa arrebentara.

O vestido continuava a contê-la, mas tinha certeza de que as costuras não durariam

muito. Por favor, Senhor, me deixe chegar até as escadas, ela implorou, endireitando o

corpo.

Deus devia estar ocupado em outro lugar. Assim que endireitou o corpo, as costuras do

vestido começaram a abrir. Instintivamente, ela abraçou o pernil contra o peito, tentando

se esconder atrás dele. Entretanto, ele não era o suficiente grande, como demonstrou a

expressão de Paen ao fitá-la.

— Avelyn! — a mãe repetiu, abalada, diante do súbito silêncio que se fez e de todos os

olhares que se voltaram para a filha.

Com os olhos cheios de lágrimas, Avelyn balançou a cabeça ao ver a mãe fazer menção

de se levantar.

— Sinto muito, milorde — ela conseguiu dizer, com voz trêmula. — Queria causar uma

boa impressão e... meu vestido não estava cabendo e... minha mãe e Gunnora me

enfaixaram, mas...

Avelyn foi bruscamente interrompida pela estridente gargalhada que Eunice soltou,

rapidamente imitada por Hugo e Stace. Os três quase caíram do banco de tanto rir.


Ninguém mais riu, com exceção de Diamanda que deu uma risadinha, mas se conteve

ao ver o olhar de censura da tia. Todos os demais a olhavam com simpatia e pena, o que

somente agravava a humilhação que sentia.

Mortificada, Avelyn deixou cair o pernil e fugiu dali, disparando escadaria acima até

seu quarto, uma vez que já conseguia respirar normalmente.


Capítulo II


Muito espantando, Paen ficou olhando a esposa correr escada acima. Que rápida! Ele

estava encantado: ela havia sido muito rápida mesmo para alguém que desmaiara um

pouco antes.

Recuperando-se do estado de choque em que havia ficado, lady Straughton finalmente

se levantou e foi atrás da filha. Duas criadas imediatamente a seguiram. Lorde

Straughton cochichou alguma coisa com o filho e também se levantou.


Paen notou satisfeito que o sogro parou por um instante para repreender o trio de mal-

educados que havia rido. Assim que ele começou a subir as escadas, Paen relaxou no


banco e refletiu meio perplexo sobre o que acabara de ocorrer. A esposa tinha

arrebentado o vestido por causa de umas faixas. Isso não fazia muito sentido para ele.

— Não entendi nada, a senhora entendeu? — ele perguntou à mãe.

— Entendi, sim. Coitadinha! — Lady Gerville levantou-se e fez um aceno, chamando

Sely, sua criada. As duas, abandonando Paen à própria perplexidade, se apressaram a

seguir a verdadeira procissão que se formara na escadaria rumo ao piso superior.

Paen voltou-se então para o pai. Embora a expressão de Wimarc de Gerville mostrasse

claramente que ele não tinha a menor idéia sobre o que se passava, Paen arriscou a

pergunta:


— O senhor entendeu o que aconteceu? O que ela quis dizer sobre a mãe e Gunnora tê-

la enfaixado?


Lorde Gerville meneou negativamente a cabeça. Ele estava mais confuso do que o filho.

Paen começava a se sentir frustrado quando o trio do outro lado da mesa começou a rir

novamente. Ele sentiu vontade de se levantar e dar uns tapas nos três para que parassem.

Eis que um deles, Hugo, resolveu, rindo muito, lhe dar a explicação:

— A idiota queria parecer mais magra, mas não há faixa que agüente a barriga dela.

Primeiro a faixa rasgou e depois foi a vez de as costuras do vestido arrebentarem.

— Mas por que ela fez isso? — ele insistiu, boquiaberto.


— Porque é uma elefanta e queria parecer mais magra e atraente para você —

respondeu Stace, e o trio irrompeu em novas gargalhadas.

Paen não achou engraçado. De cara amarrada, ele se levantou vagarosamente e levou a

mão à espada. Isso fez com que o trio imediatamente silenciasse. Mesmo assim, Paen

passou-lhes uma descompostura e avisou que só não iria matá-los porque era o dia de

seu casamento. Mas que eles estavam precisando de uma boa lição, estavam. O

comportamento deles era um total desrespeito à sua esposa e, principalmente, ao tio que

os acolhera em casa quando ficaram sem a mãe deles.

Os três emudeceram e pareciam visivelmente nervosos. Paen tirou a mão da espada e

voltou sua atenção para a escada. Depois de alguns minutos, olhou para o pai e em

seguida para o cunhado que se mantivera calado o tempo todo, observando-o.

— O que você acha que devo fazer? Acho que vou subir também.

Warin de Straughton pensou e por fim, disse:

— Melhor esperar um pouco. Avelyn está muito constrangida.

— Eu sei, mas quem não estaria com uma família como essa — ele comentou, dirigindo

um olhar de censura ao trio.

Para surpresa dele, Warin repentinamente sorriu, dizendo:

— Creio que você será um bom companheiro para ela, milorde.

Paen o olhou mais surpreso ainda; num meneio de cabeça. Levantou-se do banco para

dirigir-se à escadaria. Apesar da recomendação do cunhado, iria ter com a esposa. Cabia

a ele acalmá-la no momento em que estivesse aborrecida.

— Queridinha — lady Straughton consolava a filha, afagando-lhe as costas. Avelyn

estava deitada na cama, sob as cobertas.

— Sou uma idiota.

— Não, você é inteligente e encantadora, e teve uma linda presença no casamento.

— Eu desmaiei! — Ela levantou a cabeça para protestar.

Gunnora e Runilda entraram silenciosamente no quarto, nesse momento. Avelyn

percebeu a expressão de pena das duas e afundou a cabeça novamente no travesseiro.

— Verdade, você desmaiou. — Lady Straughton soltou um suspiro, e num farfalhar de

seda, atravessou o quarto. — Vamos, você precisa se trocar e voltar à festa.

— Me trocar?! — Avelyn sentou-se na cama, com uma expressão horrorizada no rosto.

— Não posso voltar à festa, mãe, depois de toda essa humilhação. Acho que morreria de

vergonha.


— Nada disso — a mãe assegurou, pegando o vestido vermelho que um pouco antes

havia sido descartado. — Esse é apenas um dos momentos inoportunos da vida. Haverá

muitos outros. Tudo o que você tem a fazer é levantar e cabeça e seguir em frente.

Lady Straughton cruzou novamente o quarto cheia de determinação, sendo seguida de

um lado para o outro, pelas criadas, obviamente preparadas para ajudar a enfiar o

vestido em Avelyn, se necessário. De repente, as três pararam ao pé da cama.

— Essa é a festa de seu casamento, sua festa. Se Deus quiser e seu marido não vier a

morrer, você terá só uma. Deve aproveitá-la.

Avelyn olhou para o vestido vermelho que a mãe segurava, pensando primeiro em se

rebelar, mas reconsiderou e achou melhor descer novamente. Mais cedo ou mais tarde,

teria mesmo de encarar todo o mundo. Soltando um suspiro profundo, ela endireitou o

corpo e saiu da cama, rasgando o que sobrara do vestido.

Nesse momento, lorde Straughton abriu a porta do quarto com a fúria de uma

tempestade.

— Pai! — Avelyn gritou e cruzou os braços sobre a fina combinação que usava,

procurando se esconder atrás da mãe e das criadas.

— Ela está bem? — ele indagou.

— Pai! — Avelyn gritou novamente, erguendo a cabeça sobre o ombro de Runilda para

vê-lo.

— Ora, vamos, sou seu pai! — Willham exaltou-se, em seguida balançou a cabeça e

chegou perto de Avelyn, limpando os vestígios de lágrimas na parte do rosto que ela

permitia que ele visse. Com a expressão abrandada, ele circundou o trio e, ignorando o

embaraço da filha, pousou as mãos sobre os ombros dela. — Você estava linda, Avelyn.

Mas parece mais linda agora que não está mais atada feito um peru.

— Oh, papai! — Avelyn mordiscou o lábio e se jogou contra o peito do pai com um

soluço.

— Vamos, vamos... isso não é o fim do mundo — ele argumentou, dando uns tapinhas

desajeitados nas costas da filha.

Avelyn se aninhou no peito dele, como fazia quando era criança, e choramingou:

— Por que não consigo ser mais... graciosa? Só eu mesma para arrebentar meu vestido

na frente de todo o mundo.

— Bem, talvez a culpa seja minha...

— Culpa sua? — Avelyn deu um passo para trás para fitá-lo surpresa.

Ele aquiesceu com a cabeça.


— Vê esta cicatriz? — ele perguntou, apontando para a lateral direita do rosto, perto do

olho.

Avelyn seguiu o gesto do pai. Tal cicatriz existia desde que ela se conhecia por gente.

— É a que você fez na batalha de Belville.

Um pouco encabulado, ele comentou:

— Isso mesmo, só que nunca lhe contei exatamente como participei da batalha de

Belville.

— Não.

— Porque é meio embaraçoso. O caso não é muito diferente do seu. Eu tinha calções

novos e queria impressionar sua mãe. O problema é que ficaram muito pequenos. Não

cabiam de jeito nenhum, mas eu era muito orgulhoso para admitir e encomendar um

novo par ao alfaiate. Tinha de entrar nele de qualquer jeito. — Ele riu ao lembrar. —

Bem, eu me vesti e fui a Quarmby cortejar sua mãe. Me defrontei no caminho com a

batalha de Belville. Belville era um amigo e achei que poderia ajudá-lo a vencer

depressa e ganharia um pouco de diversão no caminho. Assim, parei e me juntei à

batalha. Já estava quase no final dela quando as costuras dos meus calções

arrebentaram. Instintivamente procurei cobrir minhas partes íntimas e lorde Ivers se

valeu daquele minuto de distração para me acertar um golpe no rosto. — Ele passou a

mão pela cicatriz e prosseguiu: — Foi embaraçoso demais, juro. E aquele sanguinário

do Ivers ficou falando sobre o assunto nos seis meses seguintes. Ele se divertia,

gabando-se do feito e, sempre que possível, me jogava na cara até que, finalmente, eu o

matei na batalha de Ipswich.

A expressão de Avelyn se tornou sombria.

— Eunice, Hugo e Stace vão rir disso a vida toda.

— Pois é — o pai concordou —, pena que não possamos matá-los...

— Wimarc! — lady Straughton repreendeu-o.

Lorde Straughton apenas deu de ombros e Avelyn segurou o riso. Ele não gostava dos

sobrinhos tanto quanto ela; já havia deixado claro que considerava a presença deles uma

praga e só os tolerava em casa por causa da esposa. A tia Isadore, irmã de sua mãe, fazia

o possível para contê-los, mas os mimara demais para compensar a dupla perda, do pai e

da casa, e perdera totalmente o controle sobre eles.

Uma pequena movimentação despertou a atenção de Avelyn. Lady Gerville e a criada

haviam entrado alguns minutos antes e a olhavam com simpatia e dúvida se seriam bem

recebidas.

Forçando um sorriso para a sogra, Avelyn se desvencilhou do abraço do pai e pegou o

vestido que a mãe segurava. Foi nesse momento que Paen entrou no quarto, fazendo


com que todo sentimento de humilhação voltasse. Procurando esconder-se atrás do pai,

ela apoiou a cabeça nas costas dele enquanto ele confrontava o genro.

— O que é isso, milorde? Você não tem...

— Ela está bem? — Paen o interrompeu impaciente.

Avelyn sentiu as costas do pai relaxar diante da óbvia preocupação na voz do marido.

— Sim, ela está bem.

— Avelyn? — Paen chamou-a, evidentemente ansioso para ver por si mesmo que ela

estava bem.

Suspirando, Avelyn rapidamente se vestiu, endireitou o corpo e saiu de trás do pai.

Runilda logo se postou atrás dela para abotoar o vestido e dar o laço. Esperando que seu

rosto não tivesse muito vermelho e manchado de tanto chorar, ela ergueu o queixo e se

esforçou para encará-lo. Uma hora teria de fazê-lo, melhor que fosse logo.

— Estou bem, milorde — murmurou, cheia de dignidade. — Um pouco constrangida,

mas bem.

— Essas coisas acontecem. — Ele a tranqüilizou. — Não quero que se preocupe. Não

há nada para se sentir constrangida. Não vou julgá-la pelo comportamento de seus

primos.

Avelyn foi tomada de surpresa. Percebeu ao olhar para os pais, que eles também ficaram

confusos.

— Meus primos, milorde?

— Embora o comportamento deles seja imperdoável, acho que não deveria perturbá-la a

ponto de abandonar sua própria festa de casamento.

— Nossa... na realidade, milorde, não foi a zombaria de meus primos que me fez deixar

a mesa, já estou acostumada a elas — replicou Avelyn, sentindo-se tão desconfortável

de ter de explicar, que nem notou que os olhos de Paen se estreitaram. — Eu precisei

sair para consertar... ou melhor, trocar. Acredito que você viu que as costuras do meu

vestido se abriram.

— Ah, por isso? — Ele deu de ombros. — Como lhe disse, essas coisas acontecem. Me

preocupou que você estivesse demorando por estar aborrecida com seus primos.

Avelyn fitou-o, confusa. Ele encarava com inconseqüência coisas que poucos momentos

antes haviam sido o fim do mundo para ela.

— Essas coisas acontecem? — ela conseguiu balbuciar, quebrando alguns minutos de

silêncio.


— Sim. Estou sempre arrebentando as costuras de minhas túnicas. Depois que

Diamanda chegou, ela sempre costura para mim um túnica para meu aniversário e outra

para o natal, mas ela os corta muito pequenas nos ombros. Enquanto estou parado, não

há problema, mas assim que levanto a espada e mexo os músculos, elas arrebentam. —

Ele deu de ombros novamente. — Por isso não vale a pena se preocupar.

Paen examinou Avelyn, agora no vestido vermelho, de cima a baixo, fazendo-a temer

que, sem a faixa, ele não a aprovasse. Ela, porém, fez o possível para não deixar

transparecer seu medo.

— Sua aparência está muito melhor agora — ele comentou. — Seu rosto já tem alguma

cor e você não está mais toda chupada, parecendo um peixe.

— Parecendo um peixe?

— Sim. — Paen chupou as bochechas, fazendo um bico com os lábios, para mostrar

qual era a aparência dela.

Avelyn se deu conta da figura ridícula que fizera e corou novamente. E ela que julgara

estar causando uma melhor impressão. Notou então, preocupando-se, que Paen estava

de cenho franzido. Já se preparava para ouvi-lo verbalizar seu desprazer, quando ele deu

um passo à frente, estendeu o braço e desfez em segundos o coque que Runilda

batalhava para ajeitar novamente.

— Você tem cabelos lindos. Prefiro que os use soltos — ele recomendou, meneando a

cabeça em aprovação. Dito isso, pegou-a pela mão e puxou-a em direção à porta.

Avelyn tropeçou atrás dele, mas o seguiu, sorrindo por sobre os ombros para os pais,

lady Gerville, Gunnora e Runilda.

— Ele gosta do meu cabelo solto. Lembre-se disso, Runilda — comentou e seguiu o

marido até o grande salão, quase correndo para poder acompanhar os passos dele. Para

seu alívio, Paen parou no patamar da escadaria. Ele se voltou e ia dizer qualquer coisa,

mas franziu a testa ao vê-la corada e ofegante.

Avelyn deu um suspiro profundo e se esforçou para respirar normalmente. Não era

usual ficar sem fôlego por causa de uma corridinha como aquela, mas aparentemente

ainda não se recuperara do enfaixamento.

— Me desculpe, querida. Esqueci que você é tão pequenina. Preciso aprender a dar

passos do tamanho dos seus.

— Pequenina? — Avelyn quase chorou ao ouvir essa palavra. Nunca ninguém a

chamara de pequenina.

— Sim, pequenina! Bem, mas não tão magricela quanto a maioria das mulheres, graças

a Deus. Eu ficaria assustado caso você ficasse doente, e teria medo de esmagá-la, se

você fosse assim. Felizmente, você tem formas arredondadas e alguma carne sobre os

ossos, e eu não vou perdê-la sob os lençóis. Ainda assim, é muito menor do que eu e

preciso aprender a andar mais devagar quando estiver com você.


Paen não conseguiu ver as várias expressões que passaram pelo rosto de Avelyn,

entretido que estava em passar a mão dela pelo seu braço. Ela não estava muito certo de

como deveria se sentir diante de tais afirmações. Ter formas arredondadas e alguma

carne sobre os ossos não podia de forma alguma ser considerado elogioso, mas pelo

menos ele parecia não sentir repulsa por ela. Antes que conseguisse entender se o

marido estava ou não satisfeito com ela, os dois começaram a descer as escadas.

Avelyn estava bem ao descerem os primeiros degraus, mas assim que contemplou o

salão, com as mesas de cavalete e as pessoas comemorando, diminuiu o passo. Paen

percebeu e imediatamente adivinhou a razão.

— Você não precisa temer seus primos. Eles não vão incomodá-la mais.

Ela dirigiu um olhar cheio de curiosidade para o marido, mas não questionou como ele

poderia afirmar tal coisa. Desceu as escadarias ainda refletindo sobre as palavras que

acabara de ouvir e, sem notar, se encontrou, uma vez mais, sentada à mesa. O profundo

silêncio que tomou conta do salão quando a presença do casal foi percebida não poderia

ser de maior desconforto. Avelyn sentiu que ficava ruborizada e receou estar realmente

parecendo uma cereja naquele vestido.

Ela lançou um olhar nervoso em direção aos três primos, mas eles estavam quietos, com

os olhos fixos em seus pratos. Tudo fazia crer que não a importariam mesmo, pensou

cheia de admiração pelo marido, perguntando-se como ele havia conseguido aquilo em

apenas alguns minutos, especialmente considerando que as ameaças e surras de Warin e

do pai nunca haviam adiantado.

Tal constatação fez com que Avelyn encarasse o marido como verdadeiro herói e

dirigisse a ele um olhar de gratidão e respeito. Ele, porém, pareceu não notar, ocupado

que estava em reabastecer o prato que ambos compartilhavam. Avelyn voltou a se

espantar com o monte de comida que ele empilhava.

A chegada dos pais e de lady Gerville distraiu sua atenção. Sorriu para eles, ainda um

pouco nervosa. Ao olhar novamente para o prato, espantou-se. Já estava pela metade. O

marido comia como se não houvesse um amanhã. De repente, ele parou e fitou-a.

— Você não está comendo. Não está com fome?

Avelyn fez que sim com a cabeça.

— Na verdade, estou faminta, milorde. Não como desde anteontem.

Paen surpreendeu-se.

— Não é para menos que você tenha desmaiado então. — Ele deu uma olhada ao redor

e fez sinal para os criados, que se apressaram em atendê-lo. Em alguns instantes, o prato

já estava repleto de comida novamente.

— Coma! — ele ordenou, no momento em que os criados se afastaram, levando um

pedaço de queijo à boca de Avelyn.


Corando, num misto de vergonha e prazer diante desse gesto romântico, ela abriu a boca

e aceitou o pedaço de queijo, quase engasgando quando Paen enfiou o pedaço inteiro

em sua boca. De olhos arregalados e o rosto estufado como um verdadeiro esquilo, mal

ela acabava de mastigar o queijo e ele já estava com um pedaço de carne preparado

junto aos lábios dela. Avelyn logo entendeu que aquele não era nenhum gesto

romântico. O marido queria alimentá-la como se temesse que ela própria não se

alimentasse. O homem era cego ou idiota, pois qualquer um que a visse imaginaria que

ela deveria comer muito, embora estivessem enganados. Ela pulava refeições com

freqüência, mas isso simplesmente não fazia diferença em suas medidas.

E assim, Paen continuou a lhe dar uma e outra coisa até que finalmente ela protestou,

rindo, que não conseguiria comer nem mais um pedaço. Ele riu ao ouvir a estridente

gargalhada da esposa e devolveu ao prato o pedaço de carne que ia lhe oferecer.

— Você comeu muito bem — ele concluiu, como se estivesse elogiando uma criança.

Avelyn concordou com a cabeça e olhou para o lado ao sentir um toque em seu braço.

Sua mãe e lady Gerville estavam paradas atrás dela. Runilda, Gunnora e Sely, a criada

de lady Gerville, também lá estavam.

— Está na hora de ir para a cama.

O ar sorridente abandonou o rosto de Avelyn. Ela engoliu em seco ao ouvir essa notícia.

Estivera tão ocupada com uma coisa ou outra desde o casamento, que havia se

esquecido completamente dessa parte. Sentindo o rubor subir-lhe ao rosto, ela evitou

olhar para Paen e, relutante, levantou-se para ser conduzida ao piso superior do castelo.

Avelyn passou por todo o preparativo de forma nebulosa. Sentiu-se como se estivesse

sendo levada à forca, sabendo que já estava chegando o momento mais pavoroso e que

nada poderia fazer para evitar. Todos a veriam nua.

— Você está bem, querida? — A voz preocupada da mãe fez-se ouvir como se ecoasse

a distância. Não conseguindo responder, ela simplesmente balançou a cabeça e se enfiou

sob o lençol que lady Gerville havia levantado para ela.

Mal havia se deitado, ela ouviu o som abafado de vozes e risadas masculinas junto à

porta. Inconscientemente puxou o lençol e apertou contra o corpo. Então a porta foi

escancarada e um emaranhado de corpos masculinos irrompeu o quarto. Paen estava no

meio deles, já seminu e cercado por uma dúzia de mãos que lhe tiravam peça por peça

da roupa. Passando alguns segundos, o lençol que a cobria foi puxado e ela ficou

exposta aos olhares que perscrutavam seu corpo até Paen ser atirado à cama. Avelyn

morreu mil vezes naqueles poucos minutos que lhe pareceram uma eternidade.

— Ora veja, que sortudo! — alguém comentou. — Que travesseiro macio ela será para

a sua cabeça à noite...

— É verdade, e também o manterá aquecido durante as longas noites de inverno —

outra pessoa aparteou.


Finalmente, assim que Paen se deitou, Avelyn rapidamente puxou o lençol até o

pescoço. Com a mesma rapidez que entraram, os homens deixaram o quarto, seguidos

pelas mulheres, e os dois ficaram sozinhos. Ela mal notou, pois havia ficado

maravilhada pelo fato de não ter ouvido nenhum comentário grosseiro sobre seu corpo.

Na realidade, os comentários haviam sido até elogiosos, como se o marido tivesse

ganhado um prêmio. Ela saboreou aquela sensação por alguns momentos.

— Minha esposa?

Avelyn olhou para Paen e deu-se conta de tinha se consumido tanto na preocupação de

“estar nua na frente de todos” que não pensara em mais nada. Ocorria-lhe agora que

estava na hora da cama. Ela tentou engolir. Sua boca estava seca e mal conseguia

respirar novamente.

Como boa mãe que era, lady Straughton havia explicado tudo o que aconteceria aquela

noite à filha. Nada lhe parecera muito sedutor ou dignificante, mas a mãe lhe assegurara

que seria bom. Avelyn achou difícil de acreditar no momento em que o marido se

inclinou sobre seu corpo. Repentinamente, sua cabeça pareceu ficar vazia de

pensamentos. Ela sentiu o corpo enrijecer às primeiras carícias dele e comprimiu os

lábios quando a boca de Paen cobriu a sua. Estava meio paralisada, sem saber se

gostava daquilo ou não. Antes que chegasse a uma conclusão, sentiu a mão do marido

em seu seio sobre o lençol e sobressaltou-se. Abriu a boca para protestar, mas foi

surpreendida pela língua dele.

Não podia entender a razão de ele tê-la colocado em sua boca. A menos que desejasse

examinar se ela teria todos os dentes.

Ele tinha gosto do uísque que havia bebido no jantar e que até era gostoso. Ela aguardou

para que o exame terminasse, certa de que Paen deveria estar satisfeito de ela de fato ter

todos os dentes, mas a investigação parecia demorada e começava a provocar nela

sensações um tanto estranhas. Avelyn sentiu uma urgência de também sugar a língua

dele. Achando isso um pouco esquisito, porém, ponderou que examinar os dentes dele

seria mais aceitável, passando então a explorar com a língua a boca do marido.

Contudo, não teve muito sucesso. No momento em que sua língua recuou um pouco, a

dele começou a pelejar com a sua, provocando estranhíssimas sensações em seu corpo.

Tão empenhada estava que não percebeu que Paen puxava a camisola quase despindo-a.

Quando tentou retê-la, era tarde demais. Passou-lhe pela cabeça que não precisaria ficar

constrangida de estar nua na cama com o marido. Afinal, ele certamente a vira quando a

descobriram antes. Mas fora tudo muito rápido e ela não tinha nenhum interesse em que

ele visse mais.

Avelyn mal tinha feito essa divagação quando Paen parou de beijá-la. Soube de

imediato que ele desejava olhar para seus seios. Envergonhada por causa do tamanho

avantajado deles, rapidamente passou o braço pelo pescoço do marido e o puxou,

beijando-o com o ardor que antes lhe faltara. Ela até resolveu sugar-lhe a língua como

havia desejado antes. Tudo o que fosse preciso para evitar que ele quisesse ver o que

suas mãos já haviam descoberto.


Avelyn percebeu a surpresa dele diante de seu comportamento mais ousado e também

se surpreendeu quando os beijos se tornaram mais apaixonados. Novamente ela sentiu a

mão máscula em seu seio. Dessa vez não houve sobressalto algum. Pelo contrário, ela

arqueou o corpo, respondendo à carícia como seu instinto mandava. Eram estranhas as

reações de seu corpo. Seus mamilos repentinamente haviam se tornado muito sensíveis

quando tocados; nunca imaginara que pudessem causar sensações tão gostosas. Sempre

julgara que tivessem apenas a função de amamentar.

Após vários minutos em que todo o seu corpo se tornou uma massa de prazer libertino,

Paen novamente tentou interromper o beijo. Levada pelo prazer que ele lhe

proporcionava, Avelyn quase assentiu, mas, apossada pelo medo de que ele pudesse

rejeitá-la se a visse nua, apertou ainda mais os braços em volta do pescoço dele. ele

voltou então a acariciá-la e beijá-la, aparentemente para deixá-la mais calma, mas

Avelyn sabia que não poderia continuar daquele jeito por muito tempo. Por um

momento ficou indecisa sem saber o que fazer, mas de repente ocorreu-lhe uma solução

brilhante. Paen não teria do que se desgostar se não a visse. Apagaria a vela. Esticando


um braço, ela procurou com a mão a vela que a mãe havia deixado acesa na mesa-de-

cabeceira.


Avelyn não conseguia encontrar a vela de imediato e, na tentativa de encontrá-la, não

percebeu a mão do marido deslizando por seu corpo até se alojar em suas partes íntimas.

Ela reagiu com um estremecimento e deixou escapar um gemido. Todo o prazer que

sentia agora estava concentrado ali. A busca pela vela tornou-se então frenética; ela

apalpava aflita a superfície da mesinha até bater com força na vela.

Preocupada, interrompeu o beijo para olhar na direção da mesinha, após o pressagioso

baque que se fez ouvir. A vela não estava mais lá, mais o quarto continuava iluminado.

Ela ia se inclinar na cama para ver onde a vela havia caído quando Paen abocanhou um

de seus seios. Avelyn ficou tesa na cama e olhou para a cabeça dele, num misto de

prazer e temor.

Será que ele a vira nua?

Pai do Céu, como aquilo era bom. Era ainda melhor do que a mão acariciando seu seio.

Seu devaneio foi de súbito interrompido pela mão de Paen que, sob o lençol que ainda

cobria seus quadris, tocou diretamente em sua intimidade. Que droga, sua mãe não

havia mencionado nada sobre essa parte.

Avelyn estava tão impressionada com as sensações que sentia que levou algum tempo

para perceber que Paen havia erguido a cabeça e podia vê-la nua, pelo menos da cintura

para cima. Mas por que ele estava franzindo a testa?

O prazer deu lugar a um profundo desapontamento. Ele devia estar decepcionado com

ela. A mera visão de seu corpo o fazia fechar o cenho. Eis que ele deu um pulo na cama,

levantou-a com os lençóis e correu para a porta.

O que estava fazendo? Seria possível que ele fosse levá-la para baixo e humilhá-la na

frente de todos?


Para seu alívio, Paen a colocou no chão, no corredor, caminhou até o hall, debruçou-se

no corrimão e gritou alguma coisa para os que estavam embaixo, retornando em seguida

ao quarto.

Avelyn permaneceu no corredor, enrolando o lençol sobre seu corpo e observando

desesperada o que ele fazia. Foi então que seu olhar que vagava a esmo se deparou com

chamas que ardiam no cortinado da cama.

— Fogo! — Ela arregalou os olhos, meio estupefata, e só então se deu conta de que era

isso que Paen havia gritado para os que estavam no piso inferior. Ele não a estava

desprezando. Talvez nem tivesse se horrorizado com o que vira de seu corpo. Ele só

tentava protegê-la do perigo, lutando com o fogo que obviamente a vela havia iniciado.

Nossa! Ele era tão corajoso e galante!

Mas corria o risco de se queimar. Ele havia pegado seus calções e batia com eles no

fogo. Amarrando melhor o lençol em volta do corpo, Avelyn se apressou em ir ajudá-lo.


Apanhando a túnica de Paen, Avelyn se juntou a ele para combater o fogo. Tão logo ele

notou sua presença, largou os calções, pegou-a no colo e tirou-a do quarto.

— Paen, eu queria ajudar — Avelyn protestou assim que ele a colocou novamente no

chão.

Paen balbuciou alguma coisa, meneando a cabeça, e voltou a se aproximar do corrimão,

gritando mais uma vez:

— Fogo! — Em seguida, correu para o quarto.

Avelyn o observou lutar contra as chamas, mas sua mente ficou meio entorpecida

observando o fogo lançar seu brilho dourado sobre o musculoso corpo desnudo do

marido. Sabia que ele era alto e grande, mesmo vestido dava para se ver, mas o fogo

ressaltava sua estrutura sólida, as pernas fortes e musculosas como as de um cavalo, o

peito largo e os braços, cuja circunferência era igual a das coxas dela, porém mais rijos.

Avelyn contemplava-lhe as costas, quando Paen pegou o cortinado da cama em chamas

e o puxou para o chão. Foi quando ela se lembrou da bacia de água.

Prevendo que, depois do constrangedor incidente com a faixa, ela estaria acalorada e

suada, Runilda tivera a boa idéia de deixar uma bacia de água para que ela se lavasse

antes de se deitar. A bacia com a água usada ainda repousava sobre a cômoda próxima à

lareira.

Ignorando a ordem do marido de se manter onde estava, Avelyn rapidamente entrou no

quarto, pegou a bacia e correu em direção a ele. Estava quase chegando junto a Paen

quando o lençol começou a se soltar de seu corpo. Antes que pudesse prendê-lo, ele

escorregou e se enroscou em seus pés, fazendo-a tropeçar. O grito abafado que deu ao


sentir que ia cair fez com que Paen se voltasse. Ele procurou segurá-la pelo braço para

que se equilibrasse. Embora conseguisse evitar que Avelyn desse de cara no chão, ela

caiu de joelhos, a água da bacia voou para todos os lados e, com a água escorrendo pelo

próprio rosto, ela acabou com os olhos a apenas alguns centímetros de uma parte muito

esquisita do corpo do marido. Ao falar sobre a noite do casamento, a mãe lhe havia

descrito esse apêndice, mas ela nunca havia se deparado com um antes.

Petrificada sobre os joelhos, Avelyn não conseguia desviar o olhar. A mãe havia

comentado pouco a respeito do tal apêndice, dizendo-lhe apenas que se parecia com um

dedo. Um pouco mais grosso, fora toda a explicação dela. O que Avelyn via em Paen

agora, era algo bem mais grosso e não se parecia nada com um dedo. Talvez com um

salsichão, pensou vagamente, sendo despertada daquele torpor ao se dar conta de que o

marido havia engasgado.

Avelyn levantou a cabeça e viu que o rosto dele também estava pingando. Acompanhou

o estranho olhar do marido que primeiro a fitou e depois desceu até a própria virilha.

Espantada, ela constatou que o membro dele havia se tornado ainda maior, mas nem

teve tempo de esboçar qualquer reação, pois foi agarrada por ele e rapidamente levada

mais uma vez para o corredor.

— Não saia daqui — ele ordenou e voltou ao quarto.